4. BRASIL 7.8.13

1. O PT CONTRA DILMA
2. TCU CONDENA "CASERNA DE LUXO"
3. DE ONDE VEM O PODER DE EDUARDO CUNHA
4. A NOVA BRIGA DE JOAQUIM
5. AS PROVAS DO ESQUEMA VM A
6. POR QUE OS VENTOS DA AUSTERIDADE NO SOPRAM POR AQUI?

1. O PT CONTRA DILMA
Alimentada por desconfianas e ameaas, a relao entre a presidenta e o PT nunca foi to tensa. Envolvidos na contenda poltica torcem para que dilogos entre Dilma e Lula possam levar a um consenso sobre 2014
Josie Jeronimo e Paulo Moreira Leite 

 A POLTICA - Quando querem fustigar a presidenta Dilma Rousseff, petistas contrariados disseminam o Volta, Lula

Traduzido para o universo poltico, o conhecido ditado em casa onde falta po todo mundo briga e ningum tem razo aplica-se perfeitamente s relaes atuais entre a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Escalpelados pelos protestos de junho, que jogaram no lixo a perspectiva de uma reeleio fcil em outubro do ano que vem, o governo e o PT alimentam um cotidiano de desconfianas, ameaas, jogo duplo e crticas amargas. 

 Por trs de gestos de boas maneiras e cortesia formal, o Palcio do Planalto tem sido assombrado, nos ltimos dias, por um velho fantasma petista. Prefeita de So Paulo entre 1989 e 1993, a atual deputada Luiza Erundina (PSB-SP) entrou para os anais petistas como smbolo de autoridade desgastada e incompreendida pelo prprio partido, a quem hoje acusa de ter sabotado seus esforos para firmar um perfil duradouro a sua gesto, inclusive com a criao da passagem gratuita para nibus, que teria tanta importncia nos protestos de duas dcadas depois. No Planalto, teme-se que isso ocorra tambm com Dilma.

H duas semanas, convencida de que os petistas queriam colocar uma faca em seu pescoo e forar mudanas de rumo na poltica econmica e na estratgia eleitoral de 2014, a comear pela aliana com o PMDB, a presidenta Dilma cancelou, na ltima hora, sua presena num encontro do Diretrio Nacional petista, instncia mxima de deciso do partido. A ausncia provocou uma reao imediata, que incluiu um discurso indignado do ex-ministro Jos Dirceu e uma inesperada cena de choro por parte de Sebastio Rocha Filho, um dos mais antigos e influentes dirigentes do partido. Cinco dias depois, Dilma repetiu a atitude. No compareceu a um encontro marcado previamente com a bancada do PT no Senado, instituio que se transformou numa fortaleza de resistncia, depois que a Cmara foi capturada pela oposio. A presidenta alegou, o que era verdade, que estava gripada e com forte dor de garganta. Em vez de remarcar um novo encontro para uma ocasio em que estivesse restabelecida, Dilma despachou as ministras Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, de Relaes Institucionais, em seu lugar. Levados a debater seus pleitos num dilogo no qual todas as decises esto sujeitas a referendo posterior da presidenta, mais uma vez os petistas sentiram-se desprestigiados e rebaixados.

Na quarta-feira 31, quando centenas de militantes e dirigentes do partido se reuniram em Braslia, o ambiente era tenso. A equipe econmica havia acabado de anunciar um corte de gastos da ordem de R$ 10 bilhes, deciso que ameaava no s o trabalho cotidiano de vrios ministrios, mas tambm as perspectivas eleitorais de 2014. Um dos oradores, secretrio-geral de um ministrio importante, comentou que o corte poderia implicar a dispensa de funcionrios terceirizados  os nicos que podem ser demitidos imediatamente  e lamentou:  um erro cortar rompendo pontes com a sociedade, botar gente na rua perto da eleio. Em palavras que traduzem o esprito geral dos descontentes, o mesmo funcionrio disse: No meu ministrio, no vamos demitir nem mesmo um peo.

O encontro da quarta-feira 31 tinha como pauta a nova esperana de reconciliao entre os petistas e o governo  o programa Mais Mdicos  e por essa razo o ministro da Sade, Alexandre Padilha, ocupou o centro das atenes. Embora tenha sido forado pelos protestos das entidades mdicas a cancelar a ideia de ampliar a formao universitria de seis para oito anos, reduzindo tambm a residncia para um ano, o Planalto no tem dvidas de que a proposta de levar mdicos para os municpios e bairros pobres vai trazer benefcios eleitorais a Dilma. Se ns soubermos trabalhar, o programa vai polarizar o debate de 2014. Esse  um embate poltico que tem a nossa cara, disse Padilha.

BOM DE BRIGA - Movimentos do deputado Cndido Vaccarezza (PT-SP) esvaziaram as principais ideias de Dilma Rousseff sobre a reforma poltica

Como a experincia demonstra, a perspectiva de manuteno do poder de Estado sempre foi um dos principais lubrificantes de toda a atividade poltica. Mas nem todas as diferenas entre o PT e o governo so fceis de resolver  algumas so at difceis de esconder. O PT e a mquina de entidades que influencia, a comear pela Central nica dos Trabalhadores, est em campanha para obter 1,3 milho de assinaturas de apoio a um projeto de iniciativa popular para mudar as regras dos meios de comunicao no Pas  proposta que provoca arrepios horrorizados no Planalto. Em outro captulo, na partilha de cargos, os petistas tiveram direito a 17 ministros na Esplanada, o que no  nenhuma ninharia, mas reclamam que nenhum deles tem autonomia para tomar decises em sua rea. O Planalto responde que  assim mesmo: so ministros do governo Dilma e no representantes do partido. Na poltica econmica, os petistas aplaudiram a queda de juros, mas tm elevado suas queixas contra concesses recentes aos empresrios, como desoneraes da folha de pagamentos que trouxeram uma reduo de tributos, embora nenhuma contrapartida nos investimentos produtivos.

 Queixando-se das frequentes desavenas com o Congresso, a presidenta costuma dizer que o PT precisa de um sndico para administrar sua bancada na Cmara de Deputados. O PT retruca apontando o dedo para o PMDB. Enquanto o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), prope a votao de pautas-bomba, que tm forte impacto nas contas pblicas, como a proposta de passe livre para estudantes no transporte pblico, os deputados do PT argumentam que os problemas com o Congresso nasceram justamente de uma deciso errada do Planalto, que em negociaes realizadas logo depois da posse concordou em entregar aos aliados do PMDB, muito mais interesseiros do que se supunha, o comando do Senado e da Cmara ao mesmo tempo  situao que expe o PT e o governo s facadas de ex-amigos. Do outro lado da trincheira, o Planalto se queixa de que os parlamentares do PT no deram o devido apoio  proposta de reforma poltica e ao plebiscito, permitindo a atuao do deputado Cndido Vaccarezza (PT-SP) em movimentos que esvaziaram as principais ideias da presidenta. Neste caso, os petistas, que em sua maioria apoiam o plebiscito e a reforma poltica, esto de acordo. 

 Nesta selva de diferenas e conflitos, a ideia de Volta, Lula,  uma conversa que no tem valor de uso real, ao menos pelo momento, mas crescer sempre que petistas descontentes quiserem atingir Dilma. No momento, no PT e no Planalto cresce a torcida para que novos dilogos entre Dilma e Luiz Incio Lula da Silva possam levar a um maior entendimento em relao  campanha de 2014.  um esforo delicado por natureza. A interveno de Lula no pode ser to pequena a ponto de no produzir efeito. Nem to grande a ponto de diminuir a presidenta.


2. TCU CONDENA "CASERNA DE LUXO"
Tribunal de Contas cancelou financiamento de imvel que privilegiava grupo seleto do Exrcito e pediu abertura de inqurito civil para apurar irregularidades apontadas por ISTO
Claudio Dantas Sequeira

Em 2010, o Comando do Exrcito tentou subsidiar ilegalmente a construo de um condomnio de luxo num dos bairros mais exclusivos de Braslia. A operao beneficiaria um seleto grupo de 48 oficiais de alta patente. Para esses poucos privilegiados, a compra de apartamentos de alto padro, com at 180 m2, no bairro Noroeste, sairia por cerca de R$ 750 mil, a metade do preo de mercado. O negcio de mais de R$ 36 milhes foi denunciado por ISTO na reportagem intitulada Caserna de Luxo. Com base na denncia, de maio de 2010, o Ministrio Pblico junto ao TCU solicitou diversas diligncias e produziu um relatrio contundente condenando o empreendimento. Em sesso reservada, no incio de julho, os ministros determinaram o cancelamento da venda e abertura de inqurito civil.

Alm de apurar as responsabilidades, o TCU quer impedir o uso indevido da Fundao Habitacional do Exrcito (FHE) para a promoo de interesses particulares de um grupo de oficiais do Alto Comando das Foras Armadas. Na lista dos que seriam privilegiados com o empreendimento, os auditores encontraram ao menos oito generais e dois coronis ligados ao comandante do Exrcito, Enzo Peri, e que ocupam ou ocuparam cargos estratgicos na prpria FHE. Esto l, por exemplo, o atual secretrio de Economia e Finanas do Exrcito, general Gilberto Arantes Barbosa, e seu nmero dois, Carlos Henrique Carvalho Primo. Tambm integram a lista o general Joo Roberto de Oliveira, assessor especial de Peri e responsvel pelo projeto Sisfron para vigilncia das fronteiras, assim como o general da reserva Jos Rosalvo Leito de Almeida, que trabalha em contrato especial para cuidar do patrimnio imobilirio do Ministrio da Defesa, e o general Joaquim Silva e Luna, chefe do Estado-Maior do Exrcito.

Para o TCU, ficou configurado inequvoco conflito de interesses entre a Fundao Habitacional do Exrcito e os pretendentes da aquisio de imveis. Os empreendimentos da FHE, uma fundao pblica de direito privado, so financiados pela Poupex, poupana que gere recursos de mais de 1,4 milho de associados, a maioria militares de mdia e baixa patente que contribuem mensalmente para ter acesso  casa prpria. O negcio do Noroeste representaria mais de 20% de todos os recursos (R$ 170 milhes) comprometidos em mais de 4,5 mil financiamentos aprovados em 2010. 


3. DE ONDE VEM O PODER DE EDUARDO CUNHA
Inimigo nmero 1 do governo, parlamentar do PMDB enfrenta o Planalto amparado por uma "bancada" que ele ajuda a eleger
Claudio Dantas Sequeira e Izabelle Torres

EU TENHO A FORA - Sem o menor constrangimento, Cunha joga contra o governo e a orientao de seu prprio partido

Se os problemas que a presidenta Dilma Rousseff enfrenta no Congresso Nacional pudessem ser personificados, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) encarnaria o retrato da crise com a base aliada. Desde que se tornou lder do PMDB na Cmara, Cunha passou a representar a soma de todos os medos do Palcio do Planalto. Com o aval para negociar em nome do partido, o parlamentar enquadra vozes dissidentes, empareda o governo e at organiza tucanos e democratas para criticarem o governo.  claro que estamos preocupados. Quem tem um lder do maior partido aliado como esse no precisa de oposio nem de adversrios, diz um ministro com assento no Planalto. Uma preocupao que faz sentido. Na ltima reunio do colgio de lderes da Cmara e do Senado antes do recesso, Cunha fez questo de jogar contra o governo e contra a orientao de seu prprio partido sem o menor constrangimento. Assumiu sem reservas o papel de inimigo nmero 1. Discutia-se a proposta para votao do oramento e, ao ser dada a palavra  oposio, quem se levantou foi Cunha. Na Cmara, a obstruo continuar!, disparou. Em seguida, a reunio foi encerrada sob um silncio obsequioso.

DEPENDNCIA - Nem o vice-presidente Michel Temer consegue se impor diante de Eduardo Cunha

Diante de posturas como essa, entender como Cunha se mantm no posto e no encontra dentro de sua legenda algum capaz de faz-lo cumprir as determinaes do partido  ainda um desafio para muitos de seus colegas e especialmente para o governo. Uma das principais reclamaes dos auxiliares mais diretos da presidenta Dilma Rousseff  o fato de nem o vice-presidente Michel Temer, principal nome do PMDB, conseguir se impor diante do deputado do Rio de Janeiro. A explicao dada por parlamentares  que, na campanha presidencial, Cunha ganhou uma mesa e um telefone na residncia oficial do presidente da Cmara, ento ocupada por Temer. Sentava-se, segundo deputados e senadores, no canto esquerdo da sala principal, disparava telefonemas durante todo o dia e passava as noites em jantares com potenciais financiadores da campanha. Teria sido ele, de acordo com os parlamentares, um dos principais agenciadores de recursos financeiros para o PMDB em todos os Estados. Cunha tem um mapeamento de todos os que ajudou a eleger e isso lhe propicia manter uma espcie de bancada pessoal, disse um dirigente do PMDB paulista na manh da sexta-feira 2. No chegam efetivamente a seguir suas orientaes, mas no oferecem resistncia s suas rebeldias. Com esse tipo de ascendncia sobre os colegas e uma enorme capacidade de trabalho, Cunha acaba sendo protagonista de grandes questes, como a MP dos Portos. Ele s entra em briga grande, diz um ex-assessor da liderana do PMDB na Cmara. 

 Na MP dos Portos, Cunha se posicionou claramente contra o governo e atropelou qualquer postura partidria. Foi o responsvel pela emenda que garantia a renovao automtica das concesses dos atuais terminais porturios  a mesma que a ministra Ideli Salvatti, falando em nome do governo e da base aliada, chamou de imoral. Ao sancionar a lei, Dilma vetou o dispositivo. Nas prximas semanas, Cunha tentar derrubar o veto. No PMDB, a leitura  a de que a proposta beneficia gigantes do setor, como o bilionrio Eike Batista e o banqueiro Daniel Dantas, que vem diversificando investimentos. So atribudas a Dantas as operaes da empresa AMC Holding, do Grupo Libra, que atualmente opera no Porto de Santos. Em 2010, a AMC doou R$ 240 mil para o PMDB do Rio de Janeiro a pedido de Cunha e, segundo parlamentares,  constantemente procurada para contribuir com as finanas da legenda. Assessores da Cmara e lobistas com acesso aos gabinetes peemedebistas dizem que Cunha carrega uma agenda com a lista de empresas beneficiadas por sua atuao parlamentar, muitas delas ligadas aos setores de energia, telefonia e construo civil.

Na votao da Lei Geral da Copa, coube a ele aprovar a polmica emenda do Regime Diferenciado de Contrataes (RDC), que contornou a Lei 8.666, de licitaes, para dar agilidade  construo de estdios. Em apenas 20 dias a proposta foi aprovada na Cmara e no Senado, um feito sem precedentes. Todas as empreiteiras que foram beneficiadas com o RDC esto na lista de Cunha e certamente sero procuradas nas prximas disputas eleitorais, diz o dirigente do PMDB em So Paulo. O segredo  que os recursos obtidos por ele sempre so canalizados ao diretrio nacional, que os redistribui aos Estados. Na ltima semana, Cunha foi procurado por ISTO, mas no retornou as ligaes.

 A condio de dono de uma bancada pessoal, segundo alguns parlamentares, faz com que Cunha muitas vezes atue sem se expor. Citam como exemplo a tentativa de validar o uso de crditos podres do antigo Banco Nacional, por meio de uma MP. A proposta foi articulada por Cunha, mas chegou ao Congresso com a ajuda do senador Romero Juc (PMDB/RR). Tambm no jogo poltico, h momentos em que o deputado atua apenas nos bastidores, mas com os objetivos bem delimitados.


4. A NOVA BRIGA DE JOAQUIM
Declaraes do presidente do STF acusando o Itamaraty de discriminao racial geram mal-estar na instituio. s vsperas da retomada do julgamento do mensalo, Joaquim Barbosa coleciona polmicas
Josie Jeronimo

s vsperas da anlise dos recursos do mensalo, momento em que a serenidade deveria prevalecer, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, comprou brigas incuas. Em entrevista concedida na ltima semana, Barbosa reclamou que, em 1981, foi eliminado de um concurso para o Instituto Rio Branco, escola do Ministrio das Relaes Exteriores responsvel pelo treinamento de diplomatas, por racismo. A concorrncia era de 20 candidatos por vaga. O presidente do Supremo ainda chamou o Itamaraty de uma das instituies mais discriminatrias do Pas. Passei nas provas escritas, mas fui eliminado em uma entrevista que existia para eliminar indesejados. Sim, fui discriminado, mas me prestaram um favor, disse. As declaraes abriram uma nova trincheira de embate envolvendo Joaquim Barbosa, que nos ltimos tempos andou brigando com o Executivo, o Legislativo e a imprensa. Integrantes do Ministrio das Relaes Exteriores, que desde 2002 adota polticas de aes afirmativas para ampliar a presena de negros em seus quadros, no gostaram do desabafo do presidente do STF.

O chanceler Antnio Patriota saiu em defesa do Itamaraty. Em entrevista, considerou a reclamao de Joaquim extempornea. Ele se refere a outra era no Itamaraty. Hoje o que existe  um esforo para corrigir esse legado da discriminao no Brasil, ponderou Patriota. O filho de Rodrigo Otvio Souza e Silva, diretor do servio mdico do Itamaraty  poca em que Joaquim fez a prova, rebateu a acusao de racismo por parte da banca de examinadores. Posso afirmar que isso no ocorreu. Meu pai nunca na vida foi preconceituoso, afirmou Rodrigo Otvio Filho.

A troca de acusaes com o Itamaraty no foi a nica polmica em que Barbosa se envolveu nos ltimos dias. A divulgao da compra pelo presidente do STF de um apartamento de 70 metros quadrados em Miami tambm rendeu discusso. O contrato de venda informa que Joaquim pagou US$ 10 pelo imvel avaliado em R$ 1 milho. Para fechar a transao, Barbosa abriu a empresa Assas JB Corp. e obteve benefcios fiscais, contrariando a Lei Orgnica da Magistratura. O presidente do Supremo ainda forneceu o endereo de seu apartamento funcional como sede da empresa, o que seria ilegal. Esse tipo de empresa individual  muito comum para quem adquire imveis nos EUA. Mas acho que um presidente de um Poder no deve procurar esse tipo de benefcio fiscal. Mesmo que seja comum, a exposio  muito grande e no vale a pena, afirmou o ministro do STJ, Gilson Dipp, ex-corregedor do Conselho Nacional de Justia (CNJ). Joaquim ainda teve de se explicar sobre o auxlio de R$ 580 mil que recebeu em retroativos de bnus-moradia e licenas no gozadas na poca em que integrava o Ministrio Pblico Federal. Para seus crticos, ao aceitar as benesses, Joaquim entrou em contradio com os seus recentes discursos. No CNJ, o presidente do Supremo costuma atacar o excesso de mordomias do Judicirio e MP.

INJUSTIFICVEL - O ministro do STJ, Gilson Dipp, considerou a atitude de Joaquim Barbosa desnecessria


5. AS PROVAS DO ESQUEMA VM A
MP receber documentos que devero detalhar movimentaes de beneficirios do esquema montado para desviar recursos do Metr e trens de SP. H indcios de uso de parasos fiscais e fundaes em Liechtenstein para ocultar rastros da propina
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

O Ministrio Pblico espera a chegada de uma nova leva de documentos da Sua para avanar nas investigaes de superfaturamento e outras irregularidades cometidas por autoridades e servidores pblicos no esquema montado por empresas da rea de transporte sobre trilhos durante os sucessivos governos do PSDB em So Paulo. Havia mais de trs anos que o MP paulista tentava obter esses documentos. Para conseguir a autorizao para receber a papelada, foram necessrios um pedido da Justia Estadual, outro do governo federal, por meio do Ministrio da Justia, e do aval das autoridades suas. 

 Na ltima semana, a empresa alem Siemens forneceu s autoridades brasileiras papis em que afirma que o governo de So Paulo teve conhecimento e deu sinal verde para a formao do cartel para licitaes de obras do Metr e dos trens metropolitanos. De acordo com a multinacional, o governo avalizou o conluio entre as empresas para a partilha da Linha 5 do Metr. As provas da negociao seriam os dirios apresentados pela Siemens, uma das empresas participantes do cartel, ao Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade). A Siemens tambm confirmou, conforme antecipou ISTO, que os acertos comearam em 2000, durante o governo de Mrio Covas, e que acordos permitiram ampliar em 30% o preo pago por licitaes para manuteno de trens da CPTM.

As investigaes tendem a avanar ainda mais nos prximos dias. No material aguardado pelos promotores encontram-se documentos sigilosos relativos ao conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de So Paulo (TCE-SP) Robson Marinho, ex-chefe da Casa Civil do governo Covas. O MP espera ter mais elementos sobre suas movimentaes financeiras no pas europeu e os rastros que comprovam os caminhos percorridos pelo dinheiro detido na Sua  que soma mais de US$ 1 milho e foi congelado a pedido das autoridades do Brasil e da Sua. Marinho j  alvo de denncia judicial do MP paulista. Munido de um primeiro lote de documentos enviados pela Sua, o Ministrio Pblico no tem dvidas de que os valores movimentados por Robson Marinho so fruto de propina paga pela Alstom. Segundo o MP, ele recebia o dinheiro ilegal em uma conta facilmente identificada antes de transferi-lo a uma empresa de fachada. Os documentos que chegaro nos prximos dias s mos do MP podero comprovar e reforar essa verso.

 Outro fato que o Ministrio Pblico tentar esclarecer por meio dos novos documentos vindos da Sua  se a Alstom usou, alm de empresas em parasos fiscais, fundaes em Liechtenstein para ocultar os rastros da propina paga a servidores, autoridades e polticos do PSDB paulista. Essa prtica j foi identificada em subornos a autoridades de outras naes pelo mundo. Segundo especialistas em crime financeiro, ela consiste, num primeiro momento, em abrir no Principado de Liechtenstein, localizado no centro da Europa, encravado nos Alpes, entre a ustria e a Sua, uma fundao filantrpica ou de sucesso familiar. Depois, na condio de procurador da fundao, o responsvel pela lavagem do dinheiro cria uma conta na Sua para receber doaes de consultorias de fachada e repassar as quantias aos destinatrios da propina.

A documentao prestes a desembarcar no Pas envolve transaes financeiras e depoimentos prestados por executivos da companhia francesa Alstom, flagrada ao usar a Sua para movimentar valores e efetuar pagamentos de propina a polticos, servidores e lobistas de diferentes regies do mundo para ganhar licitaes, como as concorrncias das linhas de trem e metr no Estado de So Paulo. Alm de ajudar nas investigaes em andamento, as informaes vindas da Sua ganham mais peso no momento em que a multinacional alem Siemens  em troca de imunidade civil e criminal para si e seus executivos  denuncia ao Conselho Administrativo de Defesa Econmica (CADE) e ao Ministrio Pblico como ela e outras gigantes do setor, como tambm a Alstom, formaram uma mfia para vencer, com preos superfaturados, certames para manuteno, aquisio de trens, construo de linhas frreas e metrs durante os governos tucanos em So Paulo. Para isso, contavam com a anuncia de servidores e polticos do PSDB paulista, h quase duas dcadas no poder. 

 Tambm na ltima semana, as denncias sobre a formao de cartel para vencer licitaes na rea de transportes sobre trilhos no Brasil fizeram uma nova vtima no alto escalo da Siemens. O executivo Peter Lscher, que assumiu a presidncia mundial da empresa h seis anos para moraliz-la, foi demitido na quarta-feira 31. De acordo com o jornal alemo Deutsche Welle, a queda dele, oficialmente creditada aos resultados fracos da empresa, tem como pano de fundo as denncias no Brasil. Segundo revelou ISTO, apenas em 16 contratos relativos a seis projetos, o cartel que operava nos trilhos paulistas deixou um prejuzo de RS 425,1 milhes ao errio. Para vencer licitaes em So Paulo, multinacionais integrantes do esquema teriam pago propinas entre 5% e 7,5% do valor total dos contratos. As revelaes publicadas por ISTO levaram o governador Geraldo Alckmin (PSDB) a sair da inrcia. Na tera-feira, segundo fontes prximas a ele, Alckmin reuniu-se com dirigentes do Metr e da CPTM. No encontro, exigiu que eles dessem respostas pblicas sobre irregularidades nas licitaes. Na quinta-feira 1, a pedido de Alckmin, funcionrios citados nas denncias de ISTO foram chamados para dar explicaes na Corregedoria-Geral do governo de So Paulo. Na segunda-feira 5, dirigentes das duas estatais tambm devem prestar esclarecimentos aos promotores. Na Assembleia Legislativa paulista, o pedido para a abertura de CPI j contabilizava 25 assinaturas na sexta-feira 2. So necessrias 32. Precisamos saber os nomes dos agentes pblicos envolvidos no esquema e quanto, de fato, foi desviado. Por isso, justifica-se uma CPI, defende o deputado estadual Luiz Cludio Marcolino (PT).


6. POR QUE OS VENTOS DA AUSTERIDADE NO SOPRAM POR AQUI?
No mundo inteiro, autoridades do exemplos de comedimento com gastos e simplicidade nos costumes

Mais do que a exata traduo da opo franciscana, a imagem do papa Francisco carregando a prpria mala remete a uma reflexo poltica, que nada tem a ver com a f ou com as doutrinas da Igreja. Alm de lder religioso, o papa  a autoridade mxima de um Estado que funciona amparado em mais de dois mil anos de histria. No seria de se estranhar, portanto, que pompas e regalias inimaginveis fizessem parte do dia a dia de quem ocupa tal posio. Mas, ao carregar a prpria mala e ao transitar em automveis comuns, o papa se coloca como um lder igual a seus liderados. Se contrape ao figurino poltico tradicional que afasta os comandantes dos comandados. E, assim, coloca-se em harmonia com os gritos que, de formas diferentes, ecoam nas ruas de todo o planeta. Quando os comandados ocupam as praas para pedir transparncia e respeito com os recursos pblicos, esto, na verdade, pedindo uma nova ordem. E quem carrega mais de dois mil anos de histria mostrou ter compreendido isso. No Brasil, os eleitos, independentemente da colorao partidria, esto muito distantes dessa compreenso. Por aqui, ainda predomina a noo de que poder e mordomia caminham lado a lado. Quanto mais benesses, maior o poder.  essa a mxima que insiste, por exemplo, em manter no ar os jatinhos da FAB em misses privadas. Austeridade ainda  apenas um vocbulo usado em discurso. Est longe de ser uma ao concreta.

No poder desde 1707, quando os reinos da Inglaterra e da Esccia se uniram, at a realeza britnica vem h algum tempo demonstrando sintonia com essa nova ordem que os polticos brasileiros teimam em no enxergar. Na tera-feira 23, o prncipe William e a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, deixaram o hospital St. Mary levando nos braos o recm-nascido George Alexander Louis. As ruas ao redor da maternidade estavam tomadas por uma multido que passou dias e noites em viglia  espera para saudar o beb real. Com um sorriso no rosto, o casal acenou para o povo. Em seguida, o prncipe abriu a porta traseira de sua Land Rover, acomodou o beb em uma cadeirinha especial e ele mesmo sentou-se ao volante rumo ao Palcio de Kensington. Nada de carros oficiais, motoristas, batedores para evitar o trnsito londrino ou ostensiva segurana. Fora da realeza, o primeiro-ministro David Cameron protagoniza diariamente cenas que parecem obras de fico aos olhos dos que se acostumaram aos hbitos das autoridades brasileiras. Apesar do poder que detm tanto na Inglaterra como em toda a Europa, Cameron vai trabalhar de metr. E invariavelmente faz parte do percurso em p, pois, quando entra no trem, o mesmo costuma estar com os assentos todos ocupados. Durante atividades de lazer, o primeiro-ministro tambm faz questo de se portar como um cidado comum. H cerca de 20 dias, retornava de frias com a mulher, filhos e uma bab de Ibiza para Londres. Viajava na classe econmica, como qualquer mortal ingls. 

 Tambm na Holanda a identificao com uma nova forma de exercer o poder se faz visvel. Em abril, quando o prncipe herdeiro, Willen-Alexander, casado com a argentina Mxima Zorreguieta, foi entronizado, houve uma festa em Amsterd que levou s ruas mais de um milho de pessoas. Para o palcio real se locomoveram autoridades dos cinco continentes. Na ocasio, coube ao novo rei encaminhar uma mensagem a seus convidados pedindo para que no levassem nenhum tipo de presente, em respeito  austeridade que a crise econmica tem imposto aos vrios governos europeus.

 verdade que o papa, o prncipe, o primeiro-ministro e o rei pertencem a uma espcie de polticos forjada ao longo de sculos, que vivenciaram guerras e revolues. Isso os faz bem diferentes dos polticos brasileiros. No entanto, tal constatao no pode servir de justificativa para o que se observa por aqui. Nem mesmo o fato de estarmos em um continente historicamente novo serve de desculpa. E a prova disso est no vizinho Uruguai. L, o presidente Jos Mujica, casado com uma senadora, abriu mo de morar no palcio presidencial e vive em seu pequeno stio nos arredores de Montevidu. Vai trabalhar todos dias dirigindo o prprio carro, um Fusca 1987. Durante o dia, quando precisa se deslocar, usa o carro oficial: um Corsa. E o aparato de segurana que o cerca  formado por apenas duas pessoas. Sou um uruguaio e tenho que viver como vive a maior parte dos uruguaios. S assim poderei entender quais as reais necessidades do pas e trabalhar por elas, diz o presidente de 77 anos. So ensinamentos que vm de longe e de perto. No aprende quem no quer.

